A enclavar desde 2005

«São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim, porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.»
Professor Agostinho da Silva





19 outubro 2017

Quando o fundo ainda afunda...

Se querem ouvir-me a pedir desculpas, eu peço desculpas” (via Expresso), disse António Costa numa resposta, no meio de um debate, na Assembleia da República, sob aplausos dos seus (e, imagino, da extrema-esquerda).

Já nem me interessa explicar a esta gente que a gravidade do que ocorreu exigia um pedido de desculpas que não fosse algo referido, de passagem, no meio de uma discussão.

Mas não saber, como qualquer criança de 8 anos sabe (pois ouve-o de quaisquer pais minimamente sensatos), que dizer “se querem ouvir-me a pedir desculpas, eu peço desculpas” não é nenhum pedido de desculpas, isso é de uma ignorância indesculpável.

Aliás..., isto nem pode ser ignorância, é impossível: isto é um completo desprezo e total falta de sentimentos pelas pessoas que estão a sofrer. Atingiu o limite do inacreditável!

Depois de termos visto a agora ex-ministra dizer que o melhor para ela seria ir gozar as férias que não gozou (ao falar sobre mais de uma centena de crianças, mulheres, idosos... portugueses! mortos nos incêndios que ela não soube acautelar/coordenar/gerir)...

Depois de termos ouvido o Secretário de Estado dizer que as pessoas não podem ficar à espera que sejam os bombeiros a protegê-los do fogo (perante idosos que se arrastavam com meios baldes de água - a única com que os seus frágeis braços conseguiam, pais a protegerem os filhos, filhos a tentarem salvar os pais, as casas, os seus meios de sustento, as suas vidas)...

Depois de termos reparado na comunicação ao país (esta preparada e agendada, ou seja, sem sem apanhado de surpresa) do (ainda?) Primeiro Ministro onde o seu esgar de riso esteve presente e tranquilizou todos os portugueses com "isto ainda se irá repetir"...

Ainda tivemos que ouvir um pedido de desculpas daqueles que soam a ameaça???

E se fosses de férias, Costa? Não queres ir viver até "ao fim das tuas vidas" para Paris? Parece que há uns amigos por lá que emprestam mansões de luxo e nós é que escolhemos os acabamentos...

13 outubro 2017

Sócrates não merece cair sozinho

Eu não esqueço. Aqui estarei para lembrar que Sócrates não ascendeu sozinho, não governou sozinho e, acima de tudo, não merece cair sozinho.


Não se enganem: aquilo que ficámos a conhecer não foi a acusação de José Sócrates, mas a acusação de um regime inteiro. Um regime composto por um povo alheado e dependente, um poder corrupto, uma justiça amedrontada e um jornalismo manso. Sem esta triste conjugação de pobres qualidades, José Sócrates poderia sempre ter sido eleito em 2005, mas jamais seria reeleito em 2009. É evidente que existe gente indecorosa em qualquer parte do mundo, mas nos países bem frequentados as instituições não falecem todas ao mesmo tempo. Infelizmente, durante a era Sócrates, tudo faliu, até finalmente falir o país. Tirando duas ou três dúzias de teimosos que insistiram obsessivamente que o rei ia nu, demasiadas pessoas em lugares de responsabilidade ou não viram o que se estava a passar, por serem pouco espertas, ou não quiseram ver, por serem pouco honestas.

Neste momento marcante da História de Portugal, em que um ex-primeiro-ministro é acusado de 31 crimes de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e falsificação de documento, convém recordar que José Sócrates não caiu da tripeça por causa dos portugueses, que finalmente perceberam quem ele era. Caiu por causa da crise internacional, da falência do país e da vinda da troika. Sócrates obteve 36,6% dos votos em 2009 (mais de dois milhões de pessoas), já depois da revelação da licenciatura fraudulenta e das manobras para impedir a publicação de notícias; já depois da exibição do DVD do caso Freeport onde Charles Smith declarava que ele era corrupto; já depois de correr com Manuela Moura Guedes do programa de informação mais visto da TVI por não apreciar o estilo e as reportagens. E mesmo após a crise internacional, a falência do país e a vinda da troika, José Sócrates ainda conseguiu obter 28,6% de votos para o PS – 1,57 milhões de portugueses. Em 2015, depois de quatro anos de brutal austeridade, António Costa obteve somente mais 180 mil votos do que José Sócrates em 2011.

Sócrates foi um extraordinário caso de popularidade, não só entre o povo, mas sobretudo entre as elites. E são estas elites que hoje em dia me preocupam, porque os ex-apoiantes de Sócrates continuam por aí como se nada fosse, nos blogues, nos jornais, nas empresas, no PS, no governo. Muitos dos que acham que os portugueses têm o dever moral de pedir desculpa por acontecimentos do século XVII, não vêem qualquer necessidade de pedir desculpa por acontecimentos de 2017. Não há qualquer acto de contrição por terem apoiado incansavelmente um homem que a cada três meses era suspeito de fraude, corrupção e atentado ao Estado de Direito, e que nunca, jamais, apresentou qualquer justificação decente para aquilo de que era acusado.

Dir-me-ão: Sócrates ainda não está condenado. Pois não. Mas reparem como o entusiasmo dos seus defensores esmoreceu desde a noite da detenção (21 de Novembro de 2014) até ao dia da acusação (11 de Outubro de 2017). A verdade é esta: as acusações são demasiado fortes e as explicações demasiado fracas. Daí Sócrates estar cada vez mais isolado. Contudo, o julgamento que se aproxima não pode esgotar-se nele. É sobre Sócrates, sobre Salgado, sobre Vara, sobre Bava, sobre Bataglia, e sobre um regime construído por inúmeros ex-socratistas, que agora saem de cena na esperança de que esqueçamos o papel que desempenharem ao longo dos anos. Eu não esqueço. Aqui estarei para lembrar que Sócrates não ascendeu sozinho, não governou sozinho e, acima de tudo, não merece cair sozinho.

(Texto de José Miguel Tavares, que subscrevo na íntegra)

A sério???

É preciso ter muita coragem e sentido do dever profissional para, em plena sede de campanha do PS/Sócrates, depois de uma derrota eleitoral para PPC nas legislativas de 2011, a jornalista fazer esta pergunta!

Mais houvesse...

A pergunta que incomodou Sócrates e "adivinhou" o que estava a chegar...

10 outubro 2017

Em época de vindimas, as coisas que se aprendem...


A Univ. de Coimbra participa na "Noite Europeia dos Investigadores" e este ano fiquei a saber umas coisas numa área que não dominava...

09 outubro 2017

Inveja da morte

Invejar a vida que outros têm (ou aparentam ter), parece banal, mas invejar a forma como partimos deste mundo, é quase surreal.

Quando a idade avança e o fim começa a ganhar contornos de inevitabilidade, vou ouvindo frases em momentos de falecimentos como: "ele é que teve sorte", "quem me dera (uma morte assim)", "foi sempre uma pessoa danada, mas teve uma morte tão boa", "que rica morte...".